segunda-feira, 12 de maio de 2008

Mandarina e Heitor... conjunções aditivas e adversativas...

Mandarina já entendia de revolução. Não como as pessoas que conhecera, mas de um modo particular e coletivo. Cotidianamente lutara contra a mercantilização dos sentimentos, contra o neoliberalismo, contra suas próprias contradições. Moça de pensamento estratégico peculiar. Caíra e levantara-se muito até chegar à plenitude, e assim entender que os prazeres da vida envolvem relações humanas de todos os níveis. Passou pela fase do amor romântico e até pelo arcadismo, chegara à fase da liberdade, esta por sua vez limitada pelo mundo depredado por uma ideologia nefasta alicerçada na realidade concreta da exploração do homem pelo homem. Cometera todos os equívocos de quem tem fome voraz da vida e do outro. Todavia, não desistira de seus anseios. Seu olhar oscilara entre languidez e fortaleza, suas palavras eram o que mais lhe aproximara do humano. Isso é o bastante para que possamos entender Mandarina, inclusive porque seus segredos guardam inexorável indiscrição entre história e a nudez de sua alma.A noite sempre traz surpresas, medos, histórias, dores de cabeça e risos. Ela não conseguira enxergar isso. Foi numa noite monocromática como de costume que avistara o que mais tarde seria seu abrigo e abismo: Heitor. A sede que ele demonstrara sobre as potencialidades da moça foi o que seduzira a pequena. Falavam-se todos os dias. Não por obrigação ou bons modos, apenas por afinidade. Sentimento este até então nunca degustado por Mandarina, ao menos não daquela forma. Seus diálogos podem ser sintetizados pelas palavras “descobrimento mútuo”. Iniciara-se a história de dias muito vermelho, amarelo, azul e branco. A força repartida incitou nela poderes artísticos descomunais. Sentimentalidades brotaram-lhe e aboletaram-se em seu peito calejado. Em poucos dias crescera um bem querer puro do tamanho da distância geográfica que separava Heitor de Mandarina. Espanha e Itália nunca foram tão próximas nem tão separadas. Não lhes importara.Heitor era um operário simples que guardara amor apenas por seus ideais, amigos e guitarra. Tem uma trajetória complexa, tanto em seus amores quanto nas suas escolhas. Não conseguira mais amar, não conseguira mais perder o juízo nem se render às paixões. Muito diferente de Mandarina, que tinha como principal defeito a passionalidade sendo sempre presente ou distante, quente ou fria, odiara o morno. Ele satisfazia seus desejos corpóreos sem que lhe tocassem a alma, era uma ilha deveras. É muito difícil morar numa ilha, fácil seria fazer passeios turísticos repletos de diversão e com passagem de volta programada. Simples é ser uma ilha. Mostrar seus encantos e belezas, proporcionar luais e devaneios. Contudo, há sempre alguém que questiona o acesso à ilha e o sistema que lhe mantém. Metaforicamente a história foi sintetizada. Mas analisemos mais detalhadamente o que acontecera com nossos personagens.Rompantes de loucura são apenas rompantes. Não para os dois. Eles planejaram uma deliciosa insanidade que muitos de nós não teríamos coragem ou audácia. Em mais uma madrugada acordaram burlar as condições materiais de não ter dinheiro ou tempo para concretizar um desejo mútuo. Contudo, apenas Mandarina cumprira o acordo. Heitor, repito, amara apenas seus ideais amigos e guitarra. Mesmo assim ela revirou o mundo e seus amigos para voar até seu desejo...“Os livros na estante já não têm mais tanta importância, do muito que eu li do pouco que sei nada me resta, a não ser a vontade de te encontrar, o motivo eu já nem sei, nem que seja só para estar ao seu lado, só pra ler no seu rosto uma mensagem de amor...”Ele não lhe dera atenção, e a carência de Mandarina não deixara que ela vislumbrasse a situação. Carência é mesmo assim, torna migalhas em banquetes.Assim que as asas proporcionadas por ele fizeram-na desembarcar em Madri, seu sistema nervoso funcionara ativamente. Ela o esperou, pois ele trabalhara. Na realidade ela compreendia tudo como uma delicada forma de calor. Miraram-se, abraçaram-se e já não havia mais chão. Na mesma tarde se beijaram e se amaram, uma entrega total de Mandarina, um orgasmo para Heitor. Uma menina, uma moça, uma mulher perdida numa ilha. Uma ilha de prazeres carnais. Sons de guitarra e a voz dela era o que se escutara, em seguida seus risos e gemidos. Perdidamente apaixonada. Patrimonialmente protegido. Sinceramente declarada. Silenciosamente despido e vestido.Foram sete dias de convívio. O primeiro de alucinações e medos do envolvimento. O segundo de silêncio e lágrimas. O terceiro de lágrimas e silêncio. O restante? Angústia. Fórmula carregada de desejo sexual e música. Até chegar o último dia. Mandaria já conseguira entender que perderia o afeto que jamais tivera. Embriagara-se. Ele a vê neste estado e pouco se importa. Talvez o mais importante fosse que ela iria embora e ele teria sua vida, seu quarto e suas manias de volta. Ela retorna a sua cidade sem asas, sem sentimento, sem carinho e imersa no mais profundo desalento.Regressara para o trágico costume de fumar uma carteira de cigarro por dia, contudo o que mais lhe doía era a indiferença de Heitor. Era o reconhecimento da sua fraqueza com o tabaco e com os homens. Veio a vontade de escrever um ultimo bilhete, uma ultima prece ou sentença:“Preciso sumir da sua vida, mas parte de mim não deixa. Parte de mim te espiona e mantém vivo algo que só eu cultivo. Não foram anos nem décadas, foram dias. Desculpa por ter me apaixonado, desculpa por não saber a hora de sair, desculpa por não ter me calado na hora certa, nem gritado da forma que deveria, me desculpa por não ser teu porto seguro, por não ter segurado meus sentimentos e desejos, por ter virado mais um sexo banal, desculpa por não saber jogar teu jogo nem te envolver, desculpa por não mudar sua alimentação, desculpa por querer compartilhar todos os aspectos da sua vida e deixar meu vegetarianismo, desculpa por não querer saber de seus horários e sentir sua falta, desculpa por te imaginar aproveitando os últimos minutos ao meu lado, desculpa por te encher a paciência, desculpa por não levar tudo isso na brincadeira, desculpa por te espionar, desculpa por escrever e desenhar minha história que passa pela tua, desculpa por não te provocar mais curiosidade, desculpa por desistir de você, desculpa por sair da tua vida e principalmente pelo sal das lágrimas que deixei em teus lençóis.”Nunca enviou tais palavras.Vozes ecoavam dentro de Mandarina, elas a chamavam de “prostituta de luxo”, de “vegetariana por moda”, de “intensa insanidade”. Seguiram-se dias muito negros. Aos poucos acertara sua vida e reafirmara-se enquanto vegetariana, mulher e guerreira. Seu passatempo voltou a ser o estudo, seus risos fluíam por seus amigos, e as conversas com Heitor não faziam parte de seus dias. Sua companhia fiel era a fumaça. Desta queda não criara verdades como “nunca mais confiarei em ninguém” ou promessas de vingança, ela apenas respirava e cumpria suas responsabilidades. Deixou de espiá-lo ao passo que deixou de escrever seus sentimentos.

Enquanto isso Heitor e os traços de carinho que lhe restaram escutavam...

"...Não fui eu nem Deus não foi você nem foi ninguémTudo o que se ganha nessa vida é pra perderTem que acontecerTem que ser assimNada permanece inalterado até o fimSe ninguém tem culpa não se tem condenaçãoSe o que ficou do grande amor é solidãoSe um vai perder outro vai ganharÉ assim que eu vejo a vida e ninguém vai mudarEu daria tudoPra não ver você cansadaPra não ver você caladaPra não ver você chateadaCara de desesperadaMas não posso fazer nadaNão sou Deus nem sou SenhorEu daria tudoPra não ver você chumbadaPra não ver você baleadaPra não ver você arreadaA mulher abandonadaMas não posso fazer nadaEu sou um compositor popularEu daria tudoPra não ver você zangadaPra não ver você cansadaPra não ver você chateadaCara de desesperadaMas não posso fazer nadaNão sou Deus nem sou SenhorEu daria tudoPra não ver você chumbadaPra não ver você baleadaPra não ver você arreadaA mulher abandonadaMas não posso fazer nadaSou só um compositor popular..."

Era sua forma atéia de rezar pela expiação dos pecados de roubar a sentimentalidade da pequena. E com a mesma duração de um cigarro de Mandarina, Heitor conhece outras mulheres, procura nelas o que não mais consegue encontrar em si mesmo: beleza.
Duas dores distintas, ele lutando para não se mecanizar por completo, ela guerreando contra sua própria arte.



Mandarina descobre outros caminhos para sua solidão

Já conhecemos as cores, ou melhor a cor atual desta história. Seguiremos conhecendo os cheiros. Ao acordar Mandarina, dia após dia repete o mesmo gesto que deixa a casa emanada do odor de café, toma seu banho cítrico e derrama sobre si um perfume de bebê (inconscientemente com a esperança que o cheiro terno traga a inocência de seus sonhos de volta). Ao sair de casa a fumaça invade as entranhas dela, provocando nojo e desprezo por si mesma. O melhor de seus dias eram as noites. Depois do ritual do banho, escondida de seu próprio lado consciente vai até sua caixa de óleos de massagem, lá deleita-se do seu vício mais vil. Lá estava o óleo outrora derramado na pele de Heitor. Era o óleo do ritual que ela fazia para acorda-lo, era o óleo que precedia o amor entre dois pagãos.
Ela vence a guerra interna em sucessivas batalhas. Sem fazer poemas, sem desenhos ou pinturas, sem arte. Ela guardara apenas o que lhe era útil, o olhar para relações mais humanas. Admirava quadros como ninguém, sem precisar confundir seu próprio cinza com as cores expressadas. Nos primeiros dias conheceu um rapaz, e deliberou para si mesma que através deste esqueceria Heitor. O nome da vítima de Mandaria era Francesco.
Não é possível saber muito sobre Francesco, já que ele falava apenas o necessário, inclusive sobre sua própria forma de organização (anarquista). Um homem alto e fisicamente mais atraente que Heitor, gostava relativamente de música, amava histórias em quadrinhos e foi isso que o aproximou dela. Num dado esforço para suprir a falta de quem lhe despertou vulcões femininos, Mandarina vai para cama com Francesco. Tentou até o último instante dizer que era dele sua alma, seu gozo, seu amor. Tudo isso serviu para o crescimento de um descrédito por seus sentimentos, findando a última batalha sentimental. Outros se interessaram por Mandarina, mas o tempo da pequena, aliás agora guerreira, estava preenchido pela paixão que lhe tira o sono: a revolução.
Essa parte ainda não foi mencionada, e sem dúvidas pode não ser a parte mais inebriante, mas é aquela que vai transformar a vida de nossa personagem. Dois grandes legados foram deixados na vida dela por Heitor. O primeiro é a superação do seu passado com a resignificação daquilo que ela entendia por sexo. O segundo foi a possibilidade de se organizar internacionalmente para derrubada daquilo que lhe deprimia incessantemente a cada dia: o capitalismo. Mandarina tornara-se trotskista da quarta internacional. Pra quem adorava a guerra civil espanhola e se dizia anarquista, foi um salto na sua compreensão política.
Atos, jornais, discussões, mobilizações, balanços negativos, balanços positivos, horários, cota, fábrica, Marx, Engels, Rosa, Clara, Lênin, Trotsky... responsabilidades belas e cansativas.
Mas e Heitor? Onde está nosso operário?
Lá estava ele cultuando os mortos, discutindo com os vivos. Envolvido nas suas sombras transparentes ao seu próprio olhar. Não era tristeza que lhe passava pela cabeça, e sim o vazio. Era um tremendo estanque que constrói estradas e não anda. Repetiu o mesmo erro com outras mulheres, quando conheceu uma menina. Solphie era a ternura, a virgindade, a doçura perdida na adolescência de Heitor. Tal moça lembra os olhos moles de uma revolucionária brasileira chamada Pagu. Despertava desejo e loucura por onde passava e assim não deixou de ser com Heitor. Ele não descansou até ter o objeto que o levaria de volta à paixão, ou melhor, ao amor verdadeiro. Volta e meia recebia cartas de Mandarina, mas nem chegava a abrir, afinal a sua grande obsessão era Solphie e necessitava de todo o tempo do mundo para organizar o partido e a conquista do coração da mocinha. Solphie o encarava como um príncipe encantado do proletariado, tão logo estava presa nas suas entranhas e não mais relutou. A primeira vez dela foi conduzida pelo guardião dos segredos da perfeição. A felicidade dos dois resultaram no silencio que atordoava Mandarina. Tempos depois Heitor vê que não tem mais 17 anos, cansa de ficar à mercê da vontade dos pais de Solphie, cansa de não poder conversar sobre tudo que tange a vida operária, cansa de apaixonar-se adolescentemente. (continua)

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