terça-feira, 6 de maio de 2008

in memorian...

Caminhada

Ela: Do que as loucuras são feitas?
Ele: Vontade?
Ela: É preciso mais...
Ele: Risco?
Ela: Não só...
Ele: Irresponsabilidade?
Ela: Também...
Contudo há não sei o que,
Que emerge e nos submerge,
Num afogamento dos sentidos,
Que não se mensura,
Que se aboleta e fim...
Não sei o que,
Que conspira por dois mundos,
E nos tira o sono,
Que nos apaga o passado,
Como se cada passo desconhecesse as horas,
Numa corda bamba, caminho (s)...

Algo de novo

Minha espera não dói,
Ela me consome...
O novo sempre entontece
Mas o velho já não é confortável.
Viestes...
Olhos de procura,
Minha espera cessa quando lhe acho,
Ossos e nervos trêmulos, breve abraço...
Calma...
Olhos de desejo,
Beijos concretos,
Poesia em temperatura humana...
De que serviram meus poemas
Se eles não sabem beijar?
Se eles ficam frios e mortos
Numa folha qualquer?
Não sei, apenas escrevo.

Calma

Silêncio...
Dança dos lábios,
Entrelace de pernas,
Música rápida e lenta,
Pele.
Pescoço, nuca, orelha,
Mãos, cabelos, passos...
Espasmo.
Silêncio e sono.
Dúvidas.
Mais silêncio,
Ensurdecedor e interminável,
Será que sou eu?
Será que é você?
Ou o molho doce do macarrão?
Incertezas de solo desconhecido...
Mistérios pelo teu carinho regados.

Respostas

Tua brutalidade,
Impaciência e inércia
Não me agradam,
Mas nada há de pior
Que o teu silencio.
Nada pior do que poesia
Sem alicerces,
Do que imaginar teus pensamentos
E de suspeitar que nenhum deles,
Nenhum é endereçado a mim.
As notas do teu violão são sinuosas,
Deslizam em curvas e beira meus precipícios.
Odiosas notas que me aproximam,
E que perigosamente envolvem até o desatino.
Marx outrora avisara de meu patético fim,
Mas a conjuntura me ludibriou,
Em mais erros anárquicos...

Tempo

O mais clichê dos assuntos,
O mais indecifrável mistério.
Criança, rotina de acordar, dormi, comer, brincar...
Adolescente, o desafio da transposição das horas...
Adulto, trabalho, sexo, responsabilidades...
Poeta? Sem tempo, sem relógio, sem horas!
Sua casa é o céu noturno ou a luz diurna,
Seu alimento é a corrosão dos sentimentos,
Seu sono emenda-se no despertar,
Seu passeio é vagar sem pressa ou acelerado,
Seu trabalho é vadiar para retratar vida,
Sua luxúria é carne, palavras e danças...
Responsabilidade?
Ser o mais vil dos humanos.




Ousar, voar, despencar... “finitivo”

As janelas são confortáveis
Horas abertas, horas fechadas
Taciturno modo de existir
Por serem apenas estáveis.
Modernidade,
Janelas sobem e descem...
Mascarando solidões.
Pulei os quadrados, criei asas
Não há outro lado,
Elas eram de algodão,
Então despenco!
Corpo vazio despedaça...
Ele não está mais aqui,
Nem em qualquer janela,
Nem em qualquer caminho,
Fora pra montanha mais alta?
Geleiras? Minhas telas?

Ar

Esteio, muleta, cigarro
Anseio esquecimento
Apoio - me nas tristezas da vida.
Perdi as rimas,
Perdi o gosto,
Você? Não.
Não és brinquedo, nem ouro
Raro vício meu...
Tento me esquivar
Não te provoco riso nem raiva,
Trevas clichês emergem
Sem que notes definho...
Estais em teu trono,
Reino do silencio imperando sobre mim,
Explorando textos de teu grado,
Minhas palavras não te interessam,
Minhas canções são erradas,
Nem minha fumaça te incomoda.
Sufoco-me.

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